Dona
Orídia, mulher introvertida, de poucas amizades, porém com grandes
amigos,
no alto de sua janela, tudo observava: a saída dos ônibus, taxi, das
crianças para a escola, as partidas, pois do portal/batente de sua
janela de duas folhas era mais fácil ver as idas do que as vindas, no
interior todos estão indo embora a qualquer momento
e as chegadas... Regresso dos que partiram por longos anos, dos que
foram ontem ou hoje mesmo, retorno dos que nunca foram, estavam ali
mesmo.
Mas, o que dona Orídia fazia mesmo era vigiar sua casa, o seu lar, o lugar que se guardava e guardava seus filhos, seus filmes, seus discos e nada mais; vigiava qual cão de guarda, como se fosse uma pastora ou contadora, creditava as entradas e debitava as saídas. Como era difícil sair daquela casa, ela mesma nunca saía. Talvez não saia para não trazer nada de fora: violência, dúvida, decepção, desconfiança, perversão, mentira, hipocrisia...
Trancada no seu mundo, preservava seus sapatos, suas roupas, conservava o
sabor e o tempero dos alimentos e refletia sua imagem que se multiplicou em seis espelhos, hoje treze (número da sorte).
Meu
reino é minha casa, nela eu chego à noite alquebrada das lides diárias,
corpo e mente altamente afetada, mas logo as sensações de missão
cumprida e de conforto brotam o que se pode afirmar que certo início de
euforia surge.
Esse
reino é atemporal, embora ele exista de fato na passagem da noite para
a madrugada-mudança de dia, não tem tempo nem hora ruins, existe um
pacto firmado: as noticias que por lá passam devem sempre ser boas ou
vir com bons presságios. Até parece que certa origem árabe influenciou
nessa relação com a casa, são poucos os escolhidos,
a mim não interessa ver os vizinhos e muito menos que eles me veja.
Completude. Abrir a porta...
















