Durante todos os anos que minha mãe sobreviveu doente, acamada, alguns amigos e parentes nossos e dela se fizeram presentes para alegrar os seus dias de sufoco, pois ela passava todos os dias e todas as noites abafada; acometida de enfisema e até mesmo embolia pulmonar, com isso os seus pulmões perderam grandes áreas de oxigenação do sangue, o que ocasionou graves alterações do funcionamento do seu organismo por falta de oxigênio, visto que apenas 20% trabalhavam com a ajuda de aparelhos; tudo isso acontecendo mesmo depois de décadas que parou de fumar, mas fumou desde a tenra idade até os seus 40 anos. Ainda assim, ela gostava de participar de tudo à sua volta, queria saber como todos estavam, palpitava, dava pitacos na vida de cada um de seus filhos, pois dizia: “dos meus falo eu”.
Minha mãe levantava doente, todos os dias fazia café, às vezes, quando não estava muito ruim, até pão de queijo, cuidava das roupas, do almoço, não gostava de ficar parada, quando não conseguia sair da cama fazia suas leituras de jornais, palavra cruzadas e caça palavras; assistia TV os “seus menininhos: Zezé e Luciano”, brincava com suas netas e seu bisneto.
Não atrapalhava ninguém, não considerávamos estorvo, aliás, com os parcos recursos que possuímos tentamos a todo custo prolongar a sua estadia aqui, com a qualidade de vida que conseguíamos garantir, o que hoje podemos considerar como egoísmo, pois, naquele momento a gente só pensava na gente mesmo, a queríamos viva a todo custo ao nosso lado, a gente só pensava em adiar a data da sua ida para que ficássemos bem e acreditávamos que ela igualmente queria. E assim vivemos alguns anos, uma semana no hospital três em casa, quatro semanas no hospital... No início muitas visitas, entes queridos, depois com tantas idas e vidas as visitas foram se espaçando. Éramos seis, presentes e rentes, cada um a sua forma e na sua condição.
Hoje, depois de quatro anos de seu falecimento percebemos que como ela dizia “Nasceu, se vive. Morreu, acabou!”, é uma meia verdade, pois pra nós ela continua tão viva como antes, para os outros quando a vida cessa a memória se esvai, ausência de presença carência de essência, será? Talvez finados ajude lembrar.

